Seca do rio Madeira dificulta acesso à água e à escola em comunidades ribeirinhas de RO: ‘Hoje não é mais rio’
Moradores relatam falta de água potável, prejuízos na produção de banana e dificuldades para chegar à escola. Estiagem afeta cerca de 22,9 mil pessoas em 85 localidades de Porto Velho.
A seca do rio Madeira mudou a rotina de quem vive às margens do curso d’água, em Porto Velho. Sem água potável e com dificuldades para se deslocar de barco, moradores enfrentam problemas para manter atividades que garantem a renda das famílias e até para chegar à escola.
A região Norte possui períodos regulares de estiagem, popularmente conhecidos como “verão amazônico”, que ocorre entre julho e novembro. No entanto, monitoramentos feitos pelo SipamHidro, plataforma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), mostram que o rio está mais de um metro abaixo do esperado para esta época do ano.
Na comunidade Bom Será, a presidente da associação local, Elizete Mota Leite, conta que os moradores não têm um poço próprio para abastecer a região. A única alternativa disponível atende apenas parte das famílias e, segundo ela, não fornece água potável, “a gente se preocupa também de secar o nosso poço, o poço artesiano que a gente tem lá na beira da estrada. Meu esposo trabalha de cobrador, então ele leva o galão, traz um galão, só que aí pra nós somos seis, são quatro crianças e dois adultos, né, pra tu ver um galãozinho de água daquele é rapidinho, é rápido demais relatou.
A falta de água também afeta a produção agrícola. A agricultora Maria Rita conta que ficou quase quatro meses sem conseguir retirar a produção de banana do bananal. Sem condições de chegar ao local, parte dos frutos estragou antes de ser transportada.
“Já está estragando porque passou do tempo de tirar e quando não tem praia eu carrego na costa minha banana pra beira do rio, ponho na canoa, vou pro porto e subo lá com a banana. E agora no tempo da praia não dá pra fazer isso”, disse.
Praias gigantes se formaram onde antes existia apenas água no rio Madeira, em Porto Velho. O cenário, causado pela estiagem, colocou a capital de Rondônia em situação de emergência. Segundo a prefeitura, cerca de 22,9 mil pessoas são afetadas pela seca em 85 localidades, incluindo áreas rurais, comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas.
Na comunidade Brasileira, a agricultora Telma Temes da Silva, que nasceu e vive há 41 anos na região, diz que a paisagem mudou com o avanço da estiagem. Onde antes havia água, agora surgem bancos de areia e áreas de terra, “o nosso rio passava aqui, hoje não é rio mais. Houve uma grande transformação, isso aqui era areia, hoje não é mais. Houve um grande soterramento do rio, tem 41 anos que moro aqui e o que eu posso ver com tudo isso é que daqui a um tempo vai acabar o nosso rio aqui”, relatou.
A redução do nível do Madeira também afeta a rotina escolar da família. O filho de Telma estuda na comunidade de São Carlos e precisa caminhar vários quilômetros para chegar ao ponto de embarque do transporte fluvial.

“Meu filho estuda em São Carlos. Ele está enfrentando uma grande dificuldade, porque ele usa o transporte fluvial e para ele chegar até esse transporte fluvial, ele precisa caminhar de quatro a cinco a quilômetros a pé para poder chegar até o transporte”, disse.
Na terça-feira (6), o rio marcou 2,62 metros, enquanto a média prevista para o período era de 3,9 metros, segundo dados do SipamHidro, plataforma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
A Prefeitura de Porto Velho decretou situação de emergência por 180 dias devido à estiagem. A medida foi classificada como desastre de nível II e permite solicitar apoio dos governos estadual e federal para o fornecimento de água potável por caminhões-pipa e embarcações, além de facilitar a contratação de serviços e a compra de materiais emergenciais.
O diretor executivo da Defesa Civil Municipal, Marcelo Duarte, afirmou que o fenômeno El Niño agravou a situação da estiagem neste ano, “O El Ninõ, o efeito que a gente já está monitorando desde o começo do ano, ele agravou essa situação. Essa situação da estiagem é algo que ocorre todos os anos, mas esse ano ela foi agravada por conta do fenômeno e de todos os efeitos que dão ao redor dele”, explicou.
Com o nível baixo, bancos de areia e rochas dificultam a navegação. A Marinha restringiu a navegação noturna e houve redução no comboio de balsas de carga. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) prevê concluir os serviços de dragagem até novembro.
A Defesa Civil Municipal informou que as comunidades ribeirinhas devem receber assistência durante o período de estiagem.
















































































































































































































































































































































































































































